Proposta da Câmara de Lisboa causa polémica e gera mobilização de figuras públicas para preservar a história do icónico espaço
O Cinema Império, uma das mais emblemáticas salas de espetáculo de Lisboa, voltou ao centro das atenções devido à recente decisão da Câmara de Lisboa de alterar o uso do imóvel de equipamento cultural para equipamento religioso, permitindo ainda obras de ampliação e transformação. A Academia Portuguesa de Cinema (APC) reagiu prontamente, apelando ao Governo e à autarquia para travarem o projeto que consideram ameaçar o valor histórico e cultural do espaço, atualmente arrendado à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) desde 1998.
De acordo com a proposta aprovada, a alteração prevê a ampliação do edifício, mudanças na fachada, reestruturação dos últimos pisos e modificações interiores. Estas intervenções destinam-se a adaptar o espaço para atividades religiosas e complementares, como salas de formação, apoio administrativo e áreas destinadas a crianças e jovens. A Academia alertou que estas alterações representam uma perda irreparável para a cidade e para o património cultural de Lisboa, recordando o desaparecimento de outras salas icónicas como o Monumental, Condes e Odeon. “As notícias que nos chegam da sua desclassificação de equipamento cultural deixam antever mais uma perda irreparável para a cidade”, lamentou a entidade em comunicado.
A proposta gerou também reação imediata de figuras públicas, que expressaram a sua tristeza perante a possibilidade de transformação do Cinema Império. Rosa Bela, atriz portuguesa, foi uma das vozes a manifestar o seu desagrado, partilhando a notícia nas redes sociais com a palavra “Tristeza” como legenda. A publicação rapidamente gerou centenas de interações de seguidores que partilham a preocupação com a preservação do património cultural da capital.
O descontentamento reflete uma crescente sensibilização para a importância de preservar os espaços históricos da cidade. Muitos consideram que a adaptação de locais como o Cinema Império para fins religiosos ou comerciais compromete a memória cultural e a identidade coletiva de Lisboa. O movimento em defesa do espaço já começa a ganhar força entre cidadãos, associações culturais e profissionais do setor cinematográfico.
Perante a polémica, a Câmara Municipal de Lisboa emitiu um esclarecimento através da Agência Lusa, garantindo que o futuro do Cinema Império não está em risco. Segundo a autarquia, a proposta visa, sobretudo, regularizar ampliações e adaptações já realizadas no edifício, assegurando que serão preservados “símbolos identitários” do imóvel. A Câmara reforçou ainda que a decisão não implica o desaparecimento total do caráter cultural do espaço, embora os detalhes sobre as garantias de preservação não tenham sido explicitados.
Este esclarecimento, no entanto, não foi suficiente para tranquilizar os defensores do Cinema Império. A APC e outras vozes críticas consideram que a desclassificação como equipamento cultural representa uma ameaça à memória do espaço e ao seu potencial enquanto local de difusão artística e cinematográfica.
Construído em 1952, o Cinema Império foi durante décadas um marco da vida cultural de Lisboa. Com a sua arquitetura modernista e capacidade para milhares de espectadores, destacou-se como um dos mais importantes palcos de cinema e eventos culturais da cidade. No entanto, como aconteceu com muitas outras salas, enfrentou o declínio da era dos grandes cinemas, acabando por ser arrendado à IURD no final da década de 1990.
A transformação de antigos cinemas em espaços comerciais ou religiosos é uma realidade que tem preocupado especialistas e amantes da cultura. A perda de locais como o Império, caso venha a concretizar-se, reflete uma tendência de desvalorização do património cultural em prol de interesses privados, alertam especialistas.
Com a mobilização de figuras públicas e o apoio de entidades culturais, o futuro do Cinema Império promete continuar a gerar debate. As questões levantadas não se resumem apenas a este espaço específico, mas abrangem a necessidade de um plano estratégico para proteger o património cultural da cidade. A Academia Portuguesa de Cinema mantém a esperança de que o apelo ao Governo e à autarquia resulte numa reavaliação do projeto, salvaguardando o que resta da memória do Cinema Império.
A história deste espaço icónico ainda não terminou, e as próximas semanas serão cruciais para determinar se o Cinema Império será mais um capítulo no desaparecimento de salas históricas ou se, pelo contrário, renascerá como um símbolo da resistência cultural de Lisboa.






