“A minha vida teve muitos altos e baixos.”…
Foi com esta frase que Paula Coelho resumiu o seu percurso numa longa e emotiva conversa com Júlia Pinheiro, em março de 2021. A antiga apresentadora do Nutícias abriu então o coração sobre uma infância dura, marcada pela pobreza, pela descoberta tardia da adoção e pela perda devastadora dos pais adotivos — feridas que moldaram a mulher rebelde e inconformada que assumiu ter sido até ao fim da vida.
Paula Coelho morreu este sábado, aos 47 anos, no hospital, onde se encontrava internada após um AVC e onde lhe foi diagnosticado um cancro. A sua morte trouxe de novo à memória o testemunho cru e honesto que partilhou publicamente sobre o passado difícil que nunca tentou esconder.
Apesar de ter crescido num “bairro de barracas”, ao lado da irmã gémea, Sandra, Paula descreveu a infância como feliz, mesmo em condições de extrema carência. “Não me incomoda minimamente dizer que vivi numa barraca, que não tínhamos casa de banho, que pedíamos esmola… porque isso fez de mim a pessoa que sou hoje”, confessou à apresentadora da SIC.
Aos 12 anos, descobriu que tinha sido adotada com apenas oito dias de vida. A revelação chegou num dos momentos mais dolorosos: quando a mãe adotiva estava à beira da morte. “Só soubemos que éramos adotadas quando a minha mãe estava às portas da morte”, contou. Paula recordou ainda a forma abrupta como a adoção aconteceu, num episódio que nunca ficou totalmente esclarecido, mas que resultou numa criação marcada por afeto e cuidado, apesar das dificuldades.
A morte dos pais adotivos foi o golpe mais duro e o ponto de viragem para uma rebeldia que viria a definir grande parte da sua juventude. Órfãs e sem estrutura familiar, Paula e a irmã ficaram temporariamente ao cuidado de uma irmã mais velha, que acabou por não conseguir sustentá-las. “Não fomos inundadas por tristeza, fomos inundadas por rebeldia. Tudo fruto de revolta”, explicou. “Éramos muito insurretas, não queríamos cumprir regras.”
Essa rebeldia levou-as a um colégio de freiras, em Alvalade, uma experiência que Paula nunca recordou com carinho. “Não nos encaixámos”, admitiu. Aos 15 anos, as gémeas saíram do colégio e passaram a viver sozinhas, enfrentando uma rotina de sobrevivência extrema.
Sem dinheiro e sem rede de apoio, estudavam durante o dia e trabalhavam numa hamburgueria à noite. “Lavávamos a roupa à noite para vestir de manhã porque não tínhamos outra. Às vezes ia ainda húmida. Levávamos as calças de pijama por baixo das de ganga”, contou, num dos relatos mais marcantes da entrevista. “Tínhamos de trabalhar se quiséssemos comer.”
Apesar de todas as adversidades, Paula Coelho conseguiu concluir o 12.º ano e, anos mais tarde, licenciou-se, provando que a sua história não foi apenas feita de perdas, mas também de conquistas arduamente alcançadas.
Uma vida marcada por dor, luta e resistência, vivida sem filtros e com uma franqueza que a tornou única — e que agora permanece como legado de coragem e verdade.






