Como o programa ousado da SIC Radical marcou a carreira da apresentadora e deixou feridas que carregou durante anos
Corria o ano de 2002 quando Paula Coelho se tornou um dos rostos mais falados da televisão portuguesa graças ao programa “Nutícias”, exibido na SIC Radical. O formato, inovador e provocador, juntava informação e erotismo: enquanto dava conta das notícias nacionais e internacionais, a apresentadora despia-se em direto. O conceito rompeu com todos os padrões da época, conquistou audiências e colocou Paula no centro das atenções mediáticas, transformando-a rapidamente numa figura pública reconhecida em todo o país.
No entanto, a mesma ousadia que lhe trouxe fama acabou por se revelar uma espada de dois gumes. O programa gerou polémica, comentários maldosos e um estigma difícil de ultrapassar. Paula Coelho passou a ser vista apenas através do prisma de “Nutícias”, tendo dificuldade em ser levada a sério enquanto comunicadora. A apresentadora ficou associada para sempre a um papel que, apesar de inovador, a impediu de mostrar outras facetas profissionais e acabou por limitar novas oportunidades na televisão.
Quase duas décadas depois, Paula falou abertamente sobre o impacto desse período na sua vida pessoal e emocional. Em 2021, numa entrevista à revista Nova Gente, confessou ter vivido com o peso do preconceito, sobretudo por parte dos homens. “Sentia que não me levavam tão a sério e isso fez com que me tornasse mais retraída”, admitiu, reconhecendo que o julgamento constante afetou a forma como se posicionava, não só profissionalmente, mas também a nível pessoal.
A antiga apresentadora não escondeu, ainda, a desilusão com a mentalidade da sociedade portuguesa, que considera contraditória e moralista. Para Paula Coelho, existia uma clara hipocrisia: “Uma mulher posar para a Playboy era aceite e até elogiado, mas fazer um programa ousado na televisão era motivo de crítica”. Sublinhou também que “Nutícias” foi um projeto efémero, mas pioneiro, e que, apesar de ter desaparecido da grelha, deixou uma marca na história da televisão portuguesa.
Com a maturidade e o distanciamento do tempo, Paula Coelho reconheceu que talvez não tenha avaliado todas as consequências das suas escolhas. “Se pudesse voltar atrás, faria algumas coisas de forma diferente”, confessou, sem amargura, mas com a lucidez de quem pagou um preço elevado pela fama precoce. Uma história que reflete os desafios enfrentados por mulheres que ousaram quebrar tabus na televisão e que acabaram por ser julgadas mais pela imagem do que pelo talento.






