A recente crítica de Isabela Figueiredo, conceituada escritora portuguesa, ao programa O Preço Certo, da RTP1, reacendeu o debate sobre a pertinência do serviço público no panorama televisivo…
Figueiredo classificou o concurso como tendo “valor cultural nulo” e questionou a utilização dos impostos neste tipo de conteúdos. Mas será essa uma avaliação justa ou apenas um olhar elitista desfasado da realidade?
Ao longo de décadas, O Preço Certo, conduzido por Fernando Mendes, tem cativado audiências, especialmente entre os portugueses mais velhos, para quem a televisão generalista é uma companhia diária – e muitas vezes a única. O programa não pretende ser um veículo de alta cultura, mas sim proporcionar momentos de diversão, familiaridade e envolvimento absolutamente inofensivos. E isso, por si só, já responde a uma missão de serviço público que tantos parecem ignorar.
Reduzir o programa à expressão “culturalmente nulo” é esquecer que há diferentes formas de cultura e que nem todas passam por discursos eruditos ou grandes produções. Além disso, em vez de se apontar o dedo às produções que conseguem atrair milhões de portugueses, talvez fosse mais relevante discutir verdadeiros pontos fracos da RTP, como o modelo de financiamento e a concorrência direta, muitas vezes injusta, com canais privados no mercado publicitário.
Enquanto os intelectuais debatem a legitimidade do formato, O Preço Certo continua a liderar audiências e a cumprir o seu objetivo: entreter, aproximar e refletir, em certa medida, o país real — o da população que encontra na televisão uma janela aberta para o mundo, sem custos adicionais nem barreiras tecnológicas.
E há uma ironia inegável: cada crítica pública apenas reforça o fenómeno do programa, tornando-o mais falado e, consequentemente, mais visto. Talvez o verdadeiro “preço certo” se encontre justamente nesta equação simples de proximidade e popularidade, que parece escapar a quem, de fora, se recusa a descer à terra.






