Um carro falante, um herói solitário e aventuras cheias de ação. ‘Knight Rider’ marcou uma era na televisão portuguesa, tornando-se um clássico de culto.
Nos anos 80, a televisão portuguesa assistiu à chegada de uma série que, rapidamente, capturou a imaginação de jovens e adultos: Knight Rider, conhecida em Portugal como O Justiceiro chegou a Portugal através da RTP, onde foi exibida durante várias temporadas, enchendo as tardes e noites de ação e aventura com o carismático David Hasselhoff ao volante do lendário KITT, um carro falante com inteligência artificial, numa época em que a IA ainda era uma utopia.
O Conceito e a Origem do Sucesso de Knight Rider
Criada por Glen A. Larson, um dos mestres da televisão norte-americana, Knight Rider seguia as aventuras de Michael Knight (David Hasselhoff), um ex-polícia que assume uma nova identidade após ser dado como morto. Recrutado por uma organização secreta, a Fundação para a Lei e Governo (FLAG), Michael embarcava em missões perigosas para combater o crime e proteger os inocentes, sempre com a ajuda do seu inseparável parceiro: KITT, um carro equipado com tecnologia futurista que incluía uma inteligência artificial capaz de pensar, falar e, claro, conduzir-se sozinho.
A série estreou nos Estados Unidos em 1982 e foi transmitida em Portugal nos anos 80 e 90, tanto na RTP como mais tarde na TVI, inclusive numa versão dobrada ainda relembrada por muitos de nós hoje, não pelos melhores motivos e principalmente pela célebre frase “KITT me vem buscar amigão”, Knight Rider tornou-se um sucesso imediato. O formato de ação, combinado com a relação única entre homem e máquina, fazia com que cada episódio fosse uma mistura de aventura e ficção científica, algo inovador para a época.
As Estrelas e as Histórias de Knight Rider
A série contou com um total de quatro temporadas, com 90 episódios transmitidos entre 1982 e 1986. No centro da ação estava Michael Knight, o herói solitário que, com a ajuda de KITT, lutava contra poderosos vilões e organizações criminosas. Michael conseguia ainda comunicar com KITT através do seu relógio de pulso, objeto que, na altura, ganhou enorme relevância no paradigma da tecnologia, com várias marcas a tentarem replicarem-no. Devon Miles (Edward Mulhare) era o mentor e chefe de Michael, um homem sério e leal à missão da FLAG. Bonnie Barstow (Patricia McPherson), a engenheira e técnica responsável por manter KITT em forma, também desempenhava um papel crucial, garantindo que o carro estava sempre pronto para a ação, sendo a responsável por lhe introduzir todas as novidades e funções tecnológicas da altura, muitas das vezes no centro de controlo móvel, em forma de camião. Contudo, esta atriz acabaria por sair, sendo substituída por April Curtis (Rebecca Holden).

KITT, o verdadeiro protagonista tecnológico da série, era um Pontiac Firebird Trans Am preto, equipado com uma vasta gama de gadgets futuristas, como escudos de proteção, um turbo boost que lhe permitia saltar obstáculos e scanners capazes de analisar o ambiente ao redor. A voz de KITT, fornecida pelo ator William Daniels, era calma, lógica, mecânica e muitas vezes repleta de um humor subtil, o que criava uma forte dinâmica entre o personagem humano, cuja abordagem era mais impulsiva, e o personagem “máquina”, sempre com uma abordagem mais calculista e com base em dados científicos. Porém, e um pouco à imagem do que acontece atualmente, também KITT ia aprendendo e desenvolvendo competências “humanas”, o que reforçava a já forte ligação entre ambos.


Não há Heróis sem Vilões Memoráveis
Ao longo das quatro temporadas, Knight Rider apresentou vários vilões memoráveis. Entre os mais notórios estava KARR (Knight Automated Roving Robot), a versão maligna de KITT (Knight Industries Two Thousand). Enquanto este era programado para proteger vidas humanas, KARR tinha como prioridade a sua própria sobrevivência, tornando-o num adversário perigoso para Michael e KITT. Foram vários os encontros entres estas duas forças antagonistas, o que fazia desses episódios uns dos mais empolgantes.
Outro vilão marcante foi Garth Knight, o filho do criador da FLAG, um criminoso astuto e poderoso, que tinha como principal particularidade, ser também interpretado pelo próprio David Hasselhoff, num papel duplo. Garth tinha uma vingança pessoal contra Michael e estava envolvido em esquemas de grande envergadura, tornando-se um dos antagonistas mais temidos da série.
Episódios Que Marcaram
Entre os episódios mais memoráveis está “KITT vs. KARR”, da terceira temporada, que mostrou o aguardado regresso do temível KARR. Este episódio destacou-se pelo confronto dramático entre KITT e a sua contraparte maligna, proporcionando cenas de ação emocionantes e um clímax eletrizante.
Outro episódio que cativou os fãs foi “Soul Survivor”, onde KITT é “raptado” e o seu sistema de inteligência artificial transferido para outro veículo. Sem o seu parceiro, Michael deve resgatar KITT antes que seja destruído. Este episódio sublinhou o vínculo emocional e simbiótico entre Michael e KITT, um tema que acabou por ser recorrente ao longo da série e um que cada vez mais se torna paradoxal, tendo em conta como víamos esta ligação entre humano e máquina há quarenta anos e como a vemos e vivemos atualmente.
O final da terceira temporada, “Knight of the Drones”, foi igualmente um episódio marcante, onde Michael e KITT enfrentavam uma perigosa organização terrorista que desenvolveu uma frota de carros autónomos com o objetivo de destruir a FLAG. Este episódio destacou-se pelo uso inovador de efeitos especiais e pelas cenas de perseguição alucinantes.
O Fenómeno KITT
O Pontiac Firebird Trans Am preto, que servia de base para KITT, rapidamente se tornou um ícone por si só. Ainda hoje é um carro eterno e constantemente relembrado, havendo vários modelos espalhados pelo mundo, alguns que servem ainda hoje para eventos relacionados com a série. Equipado com um volante nunca antes visto, um painel de controlo futurista, um scanner vermelho com um som muito próprio na frente que lhe dava uma aparência quase “viva”, e uma voz calma e sensata (dada por William Daniels), KITT era tanto uma estrela da série quanto Michael Knight.
O carro era equipado com uma variedade de funcionalidades que deslumbravam os espectadores, desde o Turbo Boost, que permitia saltar obstáculos, até à capacidade de conduzir autonomamente. Já mais para as últimas temporadas, KITT foi ainda equipado com uma tecnologia que lhe permitia transformar-se e, com isso, andar ainda mais rápido, quase a velocidades super sónicas. Apesar de mais irrealista, foi uma forma interessante de irem evoluindo KITT ao longo da duração da série.
A relação entre KITT e Michael era uma das principais atrações da série. Enquanto Michael era impulsivo, destemido e frequentemente arriscava tudo em prol da justiça, KITT era a voz da razão, tentando sempre proteger Michael e seguir uma abordagem mais lógica e prudente.
Algumas Curiosidades sobre Knight Rider
- David Hasselhoff, que na altura já era conhecido por papéis menores na televisão, tornou-se uma estrela global graças a Knight Rider. O sucesso da série foi tão grande que Hasselhoff mais tarde afirmou que era abordado em todo o mundo não pelo seu nome, mas como “Michael Knight”. Hasselhoff atingiu também um estatuto quase lendário como cantor, na Alemanha. A sua música Looking for Freedom, foi um verdadeiro hino de esperança durante a queda do Muro de Berlim, chegando a dar-lhe a oportunidade de atuar em plena Porta de Brandemburgo.
- O carro KITT tornou-se um ícone por direito próprio. O Pontiac Firebird, com o seu design elegante e os gadgets futuristas, foi um dos elementos mais reconhecidos da série. Vários modelos de KITT foram criados ao longo das temporadas para diferentes cenas de ação, e alguns desses veículos ainda existem em coleções privadas.
- Também surgiram várias linhas de brinquedos, com carros e figuras de ação, com destaque para KITT, com várias versões do carro, Michael Knight e até o camião que dava assistência a KITT.
- Curiosamente, William Daniels, a voz de KITT, nunca apareceu fisicamente na série e raramente assistia às filmagens. Segundo o que se sabe, gravava sempre as suas falas separadamente, muitas vezes depois dos episódios já terem sido filmados.
- A série teve várias tentativas de reviver o conceito. Em 1991 surgiu o filme Knight Rider 2000 e Knight Rider 2010, lançado em 1994, que além do título pouco ou nada tinha do conceito original, de tal forma que, para os verdadeiros fãs esta “série” é como se nunca tivesse existido. Em 1997, a Universal transmitiu uma série chamada Team Knight Rider, com novos protagonistas e novos veículos, seguindo o conceito base e em forma de prequela do filme Knight Rider 2000 e, embora o nome de Glen A. Larson estivesse envolvido, foi cancelada ao fim dos 22 episódios que compunham a primeira temporada.
- Em 2008 e igualmente com o título de Knight Rider, a NBC lançou uma nova série, com um novo ator e um novo KITT, um Ford Mustang Shelby GT500KR e que ainda contou com um cameo de Hasselhoff. No entanto, nenhuma das sequências ou remakes alguma alcançou o impacto da série original, mantendo-se esta sempre com uma mística muito especial e particular, uma que ainda perdura nos nossos dias.
- O genérico, um marco da televisão, é, ainda hoje, um dos mais lembrados daquela época, com a mistura sonora de sintetizadores eletrónicos, com uma sonoridade crescente a acompanhar um ritmo intenso de imagens explosivas de alguns dos mais marcantes momentos da série. No sentido oposto, a versão da série do ano 2008, que apesar de ser impactante para a época, nunca conseguiu chegar verdadeiramente ao coração da legião de fãs da série original.
Knight Rider e o Futuro
Embora tenha terminado há décadas, Knight Rider continua a ser uma referência intemporal. A combinação de ação, ficção científica e humor, juntamente com a relação única entre Michael e KITT, garantiu à série um lugar especial na memória coletiva. Além disso, o seu conceito visionário sobre inteligência artificial e carros autónomos anteviu tecnologias que hoje fazem parte do nosso quotidiano. Para muitos, Knight Rider foi mais do que uma série de ação: foi uma visão do futuro, onde a tecnologia estava ao serviço da justiça e da humanidade. O seu legado perdura, não apenas como uma das séries mais icónicas dos anos 80, mas também como um símbolo de como a ficção pode inspirar a realidade.
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