Gustavo Carona, que esteve na linha da frente durante a pandemia, recordou os últimos anos marcados por internamentos, cirurgias e incertezas, mas também pelo apoio de quem nunca deixou de estar ao seu lado
Depois de ter sido considerado um dos heróis da pandemia e de ter estado na linha da frente no combate à Covid-19, Gustavo Carona viu a sua vida mudar quando começou a enfrentar problemas de saúde que condicionaram o seu dia a dia.
Gustavo Carona começou a sentir que o corpo estava a falhar, mas a procura por respostas revelou-se um caminho longo e difícil. Ao longo deste período, passou por várias hospitalizações, foi operado dez vezes e acabou por se afastar temporariamente da medicina para se dedicar à recuperação.
Uma doença que continua sem respostas definitivas
O médico explicou que enfrenta uma condição marcada por dor crónica, que se agrava quando está sentado ou de pé, obrigando-o muitas vezes a permanecer deitado.
“Eu tenho uma doença, relativamente mal explicada, mas basicamente consiste em dor crónica que tem vindo a agravar nos últimos anos, que agrava quando estou sentado ou de pé, o que faz com que eu esteja muito tempo confinado à posição de deitado, ou seja na cama”, explicou.
Gustavo Carona revelou ainda que, até ao momento, a melhor interpretação encontrada para os sintomas está relacionada com uma possível síndrome pós-infecciosa.
“Não temos certezas, temos interpretações, parece ser a doença de Lyme pós-tratamento, que é uma bactéria, que já foi tratada e que depois deixa sintomas a longo prazo. Parecido ao que conhecemos da Covid-19 longa, síndromes pós-infecciosas, que não têm marcadores inequívocos, e os sintomas são também inespecíficos, é a melhor interpretação que eu tenho, até ao momento”, afirmou.
“Perdi tudo em seis anos”: o desabafo de Gustavo Carona
Numa emotiva publicação nas redes sociais, o médico assinalou os seis anos desde o início desta fase difícil e refletiu sobre tudo o que viveu, destacando também os gestos de amizade e solidariedade que encontrou pelo caminho.
“Perdi tudo em seis anos, mas vi o melhor do ser humano e aprendi como se fosse do zero o que é a amizade e o amor. Uma doença é como a guerra, vemos o pior e o melhor das pessoas. Uma guerra crónica é como uma doença crónica, só os mesmo muito fortes e muito especiais é que lutam até ao fim”, escreveu.
Gustavo Carona acrescentou ainda:
“Faz hoje seis anos. De dor. De uma vida que se foi perdendo. De um périplo que me fez ver que bater no fundo era um percurso e não um fim em si mesmo.”
Suspeitas de cancro e internamento por meningite
Durante este período, Gustavo Carona viveu também momentos de grande incerteza, incluindo exames relacionados com alterações nos anticorpos que podem estar associados a alguns tipos de cancro.
“Por ter uns anti-corpos que muitas vezes estão associados a cancros, fiz por duas vezes um despiste a vários cancros sem que ninguém do meu círculo pessoal soubesse”, revelou.
O médico recordou ainda um dos episódios mais marcantes: o internamento por meningite bacteriana no Hospital de Matosinhos, onde foi operado quatro vezes no espaço de uma semana.
Após sair do internamento, guardou um gesto simples que nunca esqueceu. Uma auxiliar deixou-lhe, às escondidas, um copo de água branco de papel com a mensagem “Tudo de Bom” e um sorriso desenhado.
O regresso gradual ao trabalho como médico
Apesar das limitações, Gustavo Carona revelou recentemente que começou a regressar, aos poucos, à profissão.
“Esta semana voltei a ser médico. Devagar, claro”, partilhou.
O médico admitiu que todo este processo deixou marcas profundas:
“Não tenho medo de assumir as minhas fragilidades, mesmo sabendo que jogam totalmente contra todos os aspetos da minha vida. Eu estou desfeito. Fui 10 vezes ao bloco operatório e estou cheio de mazelas.”
Ainda assim, revelou que conseguiu atenuar os sintomas mais graves e regressar gradualmente à medicina.
“A minha doença não tem cura, mas consegui atenuar os sintomas mais graves. Esta semana voltei a ser médico. Devagar, claro”, afirmou.
Gustavo Carona deixou uma mensagem de gratidão a quem esteve consigo durante este processo:
“Mais do que nunca, a minha família, os meus amigos, salvaram-me. Devo-lhes, literalmente, tudo.”
O médico reforçou ainda a vontade de continuar a viver intensamente:
“Só temos uma vida. Eu quero viver a minha com o coração a arder.”
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