Semanas antes da morte de Francisco Pinto Balsemão, a 21 de outubro, aos 88 anos, já circulavam rumores sobre uma possível venda da Impresa — grupo detentor da SIC e do Expresso — à família de Silvio Berlusconi…
Na altura, sabia-se que o fundador da estação de Paço de Arcos enfrentava problemas de saúde e que a sua icónica casa na Quinta da Marinha havia sido equipada com material médico para garantir-lhe conforto durante os últimos tempos de vida. O que poucos sabiam era que, antes de partir, Balsemão teria deixado o destino do seu império mediático cuidadosamente delineado.
De acordo com o Jornal de Negócios, as negociações entre a Impresa e a MFE (Media For Europe), o grupo italiano controlado pela família Berlusconi, estão praticamente concluídas e deverão ser formalizadas até ao final do ano. Paulo Portas, no seu espaço de comentário na TVI, já havia adiantado no domingo passado que a decisão estava tomada: “Ter-lhe-á certamente custado a decisão da venda, mas ela tem a mesma coragem que teve a decisão do lançamento. Ou seja, dar uma nova oportunidade e uma nova etapa à marca que ele criou.”
Negócio fechado antes da partida
Fontes próximas do processo confirmaram que Balsemão deixou o acordo praticamente fechado, garantindo que a transição ocorresse de forma organizada. A prioridade agora é finalizar os detalhes da participação italiana e da reestruturação interna que o grupo terá de enfrentar. O próximo passo será o acerto com credores bancários e a gestão da dívida acumulada — só em 2023, a Impresa registou um prejuízo de 66,2 milhões de euros.
Esta transação representa uma mudança histórica na estrutura acionista do grupo e marca, de certa forma, o fim do domínio exclusivo da família Balsemão sobre o império mediático fundado há mais de três décadas.
O futuro do império e o papel dos herdeiros
Com a morte do fundador, a liderança da Impresa recai sobre o filho mais novo, Francisco Pedro Balsemão, atual CEO, que foi preparado ao longo dos anos para assumir o legado. Formado fora do grupo, passou por várias empresas antes de integrar a Impresa, onde liderou as áreas de Recursos Humanos e Finanças antes de chegar à presidência executiva.
Entre os cinco filhos de Francisco Pinto Balsemão — Mónica, Henrique, Francisco Maria, Joana e Francisco Pedro —, é este último quem mais se identifica com o universo da comunicação social e com a missão de preservar o ADN do grupo.
Em entrevista recente, Francisco Pedro destacou a união familiar e a herança moral deixada pelo pai:
“Somos uma família muito unida. Costumo dizer que nós temos os cinco muito orgulho no nosso pai, mas acho que ele também teve muita sorte. Ele tem cinco filhos de três mulheres diferentes e podíamos não nos dar, mas damo-nos todos muito bem.”
Mercedes, a “Rainha Mãe” e o equilíbrio familiar
Ao lado do patriarca, Mercedes Balsemão — carinhosamente tratada por “Tita” e conhecida entre amigos como a “Rainha Mãe” — desempenhou sempre um papel de união entre os filhos e foi essencial na integração de Francisco Maria, nascido fora do primeiro casamento, mantendo uma coesão familiar rara.
Agora, é ela quem deverá assegurar a estabilidade emocional da família, num momento em que o legado de Balsemão passa da memória à gestão concreta de património e de decisões empresariais de grande peso.
Um legado além da fortuna
Em paralelo com a transição empresarial, discute-se também o testamento do fundador da SIC. A herança será dividida entre os seis herdeiros diretos — Mercedes e os cinco filhos — e estima-se que ronde os 40 milhões de euros, distribuídos entre contas bancárias, aplicações financeiras e imóveis. Entre os bens mais valiosos estão a residência na Quinta da Marinha, em Cascais, e o palacete da Lapa, cuja venda recente reforçou o património familiar.
Três semanas antes da sua morte, as ações da Impresa tinham valorizado em mais de 6,3 milhões de euros na Euronext Lisboa, reforçando o peso financeiro do grupo no mercado nacional.
Um olhar para o futuro
Balsemão acreditava que o sucesso dependia da capacidade de renovação. “O que está para trás é importante, naturalmente, mas o que interessa é sempre olhar para frente. Criar é muito importante”, dizia o empresário, num reflexo da sua filosofia de vida e de gestão.
Mesmo após a sua partida, essa visão parece manter-se viva — agora nas mãos da família, que enfrenta a responsabilidade de preservar e reinventar o império que ele construiu com paixão e determinação.






