Um novo estudo científico está a lançar luz sobre um dos mistérios mais persistentes da pandemia: a origem dos sintomas prolongados que afetam milhões de pessoas após a infeção por SARS-CoV-2, conhecidos como COVID longa…
Publicada no Journal of Medical Virology, a investigação reuniu equipas da França e da África do Sul e sugere que estruturas microscópicas no sangue — como microcoágulos e armadilhas extracelulares de neutrófilos (NETs) — podem estar diretamente associadas ao surgimento e manutenção destes sintomas, como fadiga extrema, dificuldade de concentração e confusão mental.
O que são os microcoágulos e as NETs?
Os microcoágulos são pequenos coágulos de sangue que podem bloquear capilares e prejudicar a circulação sanguínea. Já as NETs são estruturas formadas por DNA e enzimas, liberadas por glóbulos brancos como parte da resposta imunitária do corpo. Embora sejam uma arma eficaz contra infeções, quando persistem no organismo, podem favorecer inflamação e a formação de coágulos.
O estudo descobriu que os pacientes com COVID longa apresentam cerca de 20 vezes mais microcoágulos no sangue do que os indivíduos saudáveis. Além disso, foi observada uma quantidade muito superior de NETs, sendo que, em muitos casos, estas estruturas estavam incorporadas nos microcoágulos, tornando-os ainda mais resistentes à degradação natural.
Método e resultados
A análise envolveu amostras de 50 pacientes com COVID longa e 38 voluntários saudáveis. Os investigadores utilizaram técnicas avançadas de microscopia e modelação por inteligência artificial, que detetou a presença de COVID longa com uma precisão de 91%, apenas com base na análise destas estruturas sanguíneas.
“A descoberta sugere interações fisiológicas entre microcoágulos e NETs que, quando desreguladas, podem tornar-se patogénicas”, sublinha Alain Thierry, geneticista da Universidade de Montpellier e líder da equipa de investigação.
Implicações e próximos passos
Os resultados oferecem uma pista concreta para explicar os sintomas que persistem em muitos doentes, mesmo meses após a infeção inicial. A descoberta também pode abrir caminho para novos tratamentos, possivelmente direcionados à dissolução destes microcoágulos ou à regulação das NETs.
Embora ainda sejam necessários estudos adicionais para estabelecer uma relação causal definitiva e desenvolver terapias eficazes, estas conclusões são um avanço significativo na compreensão da COVID longa — uma condição que continua a desafiar a comunidade médica e científica a nível global.




