Clara Pinto Correia foi uma das figuras mais marcantes da cultura e ciência portuguesas, reconhecida tanto no país como além-fronteiras…
Bióloga, escritora, professora universitária e presença habitual na rádio, televisão e imprensa, a autora conquistou notoriedade ao longo de décadas. Porém, os últimos anos da sua vida foram marcados por um profundo afastamento da esfera pública e por um sentimento de desilusão que a própria fez questão de admitir.
Numa entrevista concedida no início do ano à revista Sábado, Clara abriu o coração e traçou um retrato duro da sua realidade. Após abandonar Lisboa — decisão que descreveu como voluntária, embora reconhecesse que as circunstâncias também a empurraram para essa saída — fixou-se no centro de Estremoz, onde passou a viver uma existência simples e discreta.
Sem reservas, revelou ter passado por um período particularmente difícil:
“Fiquei sem emprego, sem qualquer espécie de trabalho. Primeiro que começasse a receber o subsídio de desemprego foram quase dois anos”, confessou, ainda marcada pela mágoa.
A bióloga admitiu, também, sentir o peso do julgamento social:
“Nas filas da Segurança Social olhavam para mim de esguelha.”
A esta fase já complicada juntou-se ainda um episódio traumático: o despejo da casa que arrendava há 30 anos em Penedo. Segundo relatou, a senhoria avançou com o processo alegando falta de pagamento, algo que a autora sempre considerou injusto. Perante a situação, Clara decidiu rumar ao Alentejo, onde viveu os seus últimos anos, longe dos holofotes que durante tanto tempo acompanharam a sua carreira.
A vida da bióloga, tantas vezes marcada por polémicas públicas, conheceu também episódios de dor profunda, dos quais nunca conseguiu recuperar totalmente — como recordado em várias ocasiões ao longo das últimas décadas.
Clara Pinto Correia deixa um legado incontornável na ciência e na literatura portuguesas, mas os seus últimos testemunhos revelam o outro lado da fama: a fragilidade, a solidão e o esquecimento que tantas vezes atingem figuras que outrora estiveram no centro da vida cultural do país.






