Foi a 11 de julho de 2001 que Portugal despertou para uma notícia que ninguém queria acreditar: a partida trágica e inesperada de Cândida Branca Flor, uma das figuras mais carismáticas da música portuguesa…
Passaram-se 24 anos, mas a memória da artista continua viva na mente e no coração de muitos, como prova o recente desabafo do apresentador Júlio Isidro, nas redes sociais.
Sob o título “O que esconde um sorriso”, Júlio Isidro lembrou a mulher que encantava os palcos com energia contagiante, vestida de cor, ginásio, elegância e um sorriso que parecia eterno. Mas como tantas vezes acontece, a luz exterior ocultava sombras interiores. “Nunca adivinhei no seu olhar uma sombra de depressão ou apenas de tristeza”, confessa o comunicador, que acompanhou grande parte do percurso mediático da artista.
A história de Cândida Soares, natural de Beringel, no Alentejo, cruzou-se com a da cultura portuguesa ainda nos anos 70, quando integrou a mítica Banda do Casaco, no disco Coisas do Arco da Velha. Foi aí que nasceu o nome artístico Branca Flor, inspirado no tema “Romance de Branca Flor”. Em 1976, estreava-se na televisão no programa infantil ‘Fungagá da Bicharada’, apresentado por Isidro, conquistando de imediato o público mais jovem com o seu estilo doce, enérgico e pedagógico.
Cândida era mais do que uma cantora: era uma presença. Participações em festivais como o da Canção, onde brilhou ao lado de Carlos Paião com “Vinho do Porto”, tornaram-na uma referência. Os seus espetáculos eram sinónimos de alegria, quase como se cada música fosse um antídoto contra a tristeza. Quase.
Mas por trás da artista, vivia uma mulher que, talvez, se sentisse cada vez mais ausente do espaço que em tempos dominou. Em 2001, Cândida foi encontrada sem vida em casa, após ingerir uma dose fatal de comprimidos com álcool. A notícia caiu como um sismo no meio artístico. Porquê? — essa foi, e continua a ser, a pergunta que ecoa.
“A nossa Jane Fonda não dava mostras de querer trocar a vida pela morte… Que fantasmas viviam dentro dela?”, questiona Júlio Isidro. Uma carreira que parecia ter tudo, uma vida aparentemente preenchida por afetos e reconhecimento, mas que, ainda assim, escondia uma dor profunda. Uma solidão ruidosa, talvez. Uma ausência de futuro, quem sabe.
Com o passar do tempo, resta-nos o legado. As canções, os programas, os sorrisos — esses ficam gravados em fita e na memória coletiva. Mas também fica o alerta silencioso: nem sempre a alegria visível corresponde ao que vai dentro da alma. Cândida Branca Flor é, tragicamente, exemplo disso.
“A Borboleta do Fungagá voou para parte incerta”, conclui Isidro. E com ela, uma parte da inocência da televisão portuguesa, uma era mais ingénua, mais direta ao coração.
Hoje, 24 anos depois, celebramos não a tragédia, mas a vida. A mulher que cantou, encantou e que, mesmo na dor, nos deixou flores — brancas, como o seu nome — espalhadas pela memória da cultura popular.






